O tópico da emigração perpassa as literaturas de países que sofreram o processo de colonização desde o seu nascedouro, e chega à contemporaneidade pelas múltiplas vozes dos escritores disseminados pelo mundo. Inácio Rebêlo de Andrade, poeta e ficcionista angolano radicado em Portugal, filia-se a essa tradição, realizando uma obra que tematiza o binômio emigrante-exilado, criando personagens que são vítimas da saudade e da obsessão pelo retorno à pátria. Utilizando subsídios dos estudos pós-coloniais, rastreamos a representação do estranhamento ocasionado pelo exílio no romance Na babugem do êxodo (2005), enfocando o exercício de evocação da terra natal através da escrita, onde o elemento histórico e referencial do exílio incorpora-se ao universo representativo, conformando-o e modificando-o. Evidentemente, há muito mais que a questão da língua no tocante à emigração. O indivíduo abandona suas mais arraigadas referências e lança-se no desconhecido, cuja estranheza se apresenta em primeiro plano na dificuldade com uma nova língua. No caso dos emigrados africanos para os países de língua portuguesa, o problema é aparentemente menor por causa da língua comum; entretanto, as diferenças acentuadas entre as duas formas de falar o português estabelecem o desconforto característico de quem chega ao estrangeiro. Assim, torna-se imperiosa a necessidade de “alfabetizar-se” (na própria língua) para sobreviver. Desenraizar-se para suplantar a dor da perda. É curioso observar que, ao lado do secreto desejo de retornar à aldeia, todo emigrante alimentou antes o atávico sonho de procurar outras paragens. No exílio, a saudade, aumentada pela sensação de forasteiro, faz com que aquele ponto além-mar se transforme no referencial mais legítimo de sua existência.
Klíčová slova:
pós-colonial; emigração; saudade; lusofonia